Genf, 10 de Novembro 2005.
18h30m: Pedir dinheiro emprestado. Amigos mais próximos, Zé e Tiago, a inscreverem-nos para o próximo curso de ski. Dirigo-me á permanence, pedincho com o Tiago: Ele manda-me ir buscar a mochila ao carro. Vou. Regresso. A carteira não está com ele. Pedir ao Zé. Ele dá-me o dinheiro que tem, 60 chifos, eu aceito-o como dei ontem 600 Euros para as mãos do Miguel. O crédito entre amigos não tem limite.
18h35m: Dirigo-me ao veículo. Já com a minha 'carte neige'. A partir de hoje, estou habilitado a subir ao topo e descer velozmente.
18h45m: Route de Meyrin. Trânsito sereno. A gasolina consome-se á mesma velocidade que o meu crédito. Tudo se consome nesta porra desta vida. Pior: Não posso fazer um refill. Não tenho crédito na carteira, e as estúpidas das máquinas das bombas de gasolina na Confederacão Helvética não aceitam cartão. E não há guichet com a senhora simpática que se expõe a tiros de caćadeira. Creio que aqui de resto não há caća com caćadeiras: Perder-se-ia muito crédito social. E aqui, o crédito importa. Há uns cartõezinhos que definem se somos bons cidadãos ou não. Se o crédito estiver muito negativo, perdem-se direitos. É a vida dos créditos e débitos.
18h50m: Entrada exacta no parque da Gare de Cornavin. Procura de um lugar de estacionamento. É me dado um crédito de tempo para manter o meu carro abrigado das intempéries, que poderei pagar dali a pouco.
18h55m: A senhora tenta-me impedir de entrar na loja de chás e bules: "- Il faut 5 min seule, monsieur! - C'est vite... je cherche un bule pour un ami" Procura rápida: Não gosto de perder tempo em compras, e já sabia ao que vinha: O Miguel tinha-me dito para ser azul, e com um limite de 50 chifos. Escolho um de 53.50 chifos. Perder tempo em compras equivale a perder crédito no nosso tempo. O crédito que se esgota e não regressa nunca. Como todos os créditos: Têm de ser pagos mais cedo ou mais tarde, e o do tempo é o que estamos a gastar desde que nascemos. Desde que somos concebidos, melhor dizendo. Na minha opinião.
18h59m: "- Ont accepte pas la cart d'crédite a cette heure. - Pas de problem, je payerai comptant.". De qualquer modo, não tinha dinheiro no cartão. Por isso fui pedir crédito ao Zé ou ao Tiago. Pago. 55 chifos, para facilitar a conta. A senhora devolve-me 5.5 chifos.
Quanto vale o crédito humano? Quanto valem palavras doces? Quanto vale a gratidão? Quanto vale a correcćão? Ontem, valeu 4 moedas de 1 franco suico. "- Madame, c'est incorrect: Vous m'avez donné 5 francs, et je vous ai payé 55. - Ah! Monsieur! Merci! Vous êtes gentil! Ou est ma tête... Merci bien. Vous êtes honnête."
Saí da gare. Com um sorriso. "Vous êtes honnête." O que perdi no crédito da minha bolsa, ganhei na minha paz com Deus. Não me importei mais com o que iria perder no estacionamento: Fui até á igreja, ali ao lado. Acho que ganhei um bocadinho de crédito no respeito que ele me tem.
Felizmente, o crédito de Deus não pode ser utilizado na vida terrena. É crédito que se poupa para uma vida vindoura. E toda a gente ganhou: A senhora, eu, Deus, e o Zé, que terá um bonito bule que poderá trocar no caso de não gostar. Segundo o que me dizem, ele não irá trocar. A prenda vale não pelos créditos que tem, mas pelo que é.
A vida, ao contrário da bolsa, não é feita de créditos. Não posso usar o meu com Deus. O meu sorriso por ter feito tudo bem fica entre nós.
Adenda: A senhora do Balexert que me tentou tirar 10 Chfs não deve ter ficado de consciência tranquila. Além de não ter crédito na bolsa, ganhou a ruga de não fazer o que está certo. Não importa. Os créditos que ganhar com outros incautos pagarão a operacão. No fundo, o que é que não paga o dinheiro?
Adenda II: Fica reservada para um parágrafo do livro que terminei. Ontem. Em paz de espírito. Mais logo.