E ao olhar o vale profundo,
O mundo gira invertido
A vida toda num segundo
E o céu, agora é lá no fundo.
Descobri que tens um novo grupo de amigos. Pensei que não terias muito a ver com eles, mas também vejo o que se passa: As tuas amigas estão a estudar a um ritmo diferente: duas trabalham, a Inês está a concluir o curso. Já não existe a Gite. Na tuna, como me disseste todas são pequenas. Precisaste de outra maturidade, de conversas sérias, e quem melhor do que estar no meio de gente inteligente e irreverente.
O meu grupo de amigos de que te recordas são maioritariamente os que nunca chegaste a conhecer: escuteiros, fugazes, capazes de cantar em torno de uma fogueira. Lembras-te da serenata proporcionada pelos de Esgueira? Pessoas que eu conhecia, fugazmente, que ainda hoje me poriam um brilho no olhar.
Voltando: estarias sozinha sem ele. Abandonada. No momento propício para mudar. De um lado, a solidão, o continuar numa tuna na qual começas a não te rever. Do outro, mudar, talvez para o que não querias, mas crescendo.
Lembro-me de ires á minha promessa de caminheiro. Não estiveste na minha partida... (Estou a chorar... estou a conseguir chorar. Não estou a conseguir, estou simplesmente a chorar!!! A chorar! Só agora, a ouvir as músicas dos escuteiros... as músicas do ano em que te deixei... da minha partida! Eras tu que eu queria que estivesse lá! Fiz um discurso tão bonito.)
Desculpa, tive de me acalmar. A minha partida... Nunca cheguei a falar-te dela. Parti por ti. Decidi partir enquanto estava contigo. Lembro-me que em Setembro me disseste algo como "Logo agora, que tudo parecia tão bem... tens carro, não estás nos escuteiros, já (O gus está a falar comigo, já volto)..." Já nem me lembro de tudo. Mas sim, estava perfeito. Eu tentei que fosse perfeito por ti. Em Setembro, foi em Setembro que te perdi, e não sei porquê. Tinhas-me ajudado a viver o que eu mais queria precisamente sem pensar em amanhã. Um grande acampamento, no qual tive um papel essencial. Depois disso, não havia mais escuteiros, entendes? Ficava a alma, mas tinha tempo para ti... E o que mais desejei, nesse acampamento, foi que tivesses ido visitar o teu irmão. Ver-te. Nunca te disse, mas durante o acampamento estive na serra da boa-viagem, a fazer trekking. E pareceu-me tão... lar, tão familiar... Que tudo na vida se resumia a descer e ir ter contigo. Claro, ia todo divertido a falar com uma amiga grega, se me visses pensavas: Lá está ele enrolado com mais uma gaja. Não era isso, percebes? Era tudo aquilo que perdi no período em que estive bloqueado no messenger: A crença de que as relações humanas são de amizade e não de egoísmo, simplesmente carnais. Quando estás sozinho tornas-te egoísta, egocêntrico. Contigo era Homem, sozinho fui animal. Contigo era escuteiro, sozinho perdi a alma...
Bem, já não estou a chorar. Mas lembro-me agora. Fiz um discurso lindo na partida, (estou outra vez a chorar...), até recebi parabéns! Tinha estado em Covelo de Paivô com o João e o Botelho, só os três, no mesmo sítio que tinha calcorreado anos antes logo depois de te conhecer. Com uma margarida no cantil, para não se estragar... mesmo sítio onde anos antes tinha subido um monte inteiro só para ter rede e te falar, quando tu já tinhas partido para outro coração... Sabes, se te odiei algum dia, foi aí. Porque não vi razão para me deixares quando era todo eu teu... (Estou a escrever tanto hoje, acabado de acordar...) Continuando, falei de tudo que se passou durante aqueles 5 anos de caminheiro... Já viste a coincidência que foi? 5 anos de caminheiro, 5 anos contigo... E não falei de ti. E, falei dos meus pais, dos amigos, dos chefes, dos escuteiros do agrupamento, do clã universitário, do Rover2001, de tudo, tudo... E logo a seguir aos meus pais, houve um vazio. Não estavas na cadeira ao lado da minha mãe. Estúpido, não é? Foi logo a seguir a ter-te deixado... Se calhar lembras-te melhor do que eu. E sentia, naquela altura, que podias pertencer ao meu mundo de escutismo tal como a Ró... exactamente como o meu padrinho de caminheiros! Espraiando o sorriso, acompanhando-me, mas sem ter de pertencer a algo em que não acreditavas absolutamente! Enfim, delírios matinais...
Agora, encontraste o teu espaço, sinto-o. Não é perfeito, mas também não é de certeza pior que o meu mundo que conhecias: possivelmente é até bem melhor. Sentes-te acarinhada, pertença de um local. Estás entrosada. As tuas amigas aceitarão o que vier. Tu farás o máximo por isso. Então o que resta? O que me resta?
Resignar-me e aceitar...
Bem queria. Mas continuo a acreditar no amor. E continuo a não perceber, se eu nunca deixei de te amar, apenas o escondi (não percebo porquê), como me podes ter deixado de amar, se algum dia me amaste! Se, como dizes, enquanto estiveste com todos os outros, não deixaste de me ter lá dentro, então seria aceitável que pense assim??
Seria, se não fosses tão feliz. Não vou sair deste espaço ingreme, deste vale onde me coloquei: empurras-me aqui para dentro: és feliz e não me amas. Mas também me disseste "Não sei." Queres a minha amizade, precisamente para te fartares de mim. Porque sem amor, não resta nada, entendes? Sem amor, não resta nada, e tudo o que fomos juntos desaparece.
O que me disseste faz agora anos, foi simples, quando te pedi a amizade: Tens a minha amizade, mas não volto a falar contigo. Vou ter de ganhar a coragem de te dizer isso. Quando me contactares. Que não será este fim-de-semana. O fim-de-semana é para estares com ele. E eu comigo.